26 de novembro de 2020

Nossas Letras

Aplausos para Patrícia

É exemplo de autonomia, coerência e grandeza que eu aplaudo, retribuindo o beijo que ela me enviou por telefone, cinco dias antes de adoecer.

Nossas Letras 18/09/2020
Sonia Machiavelli
Especial para o GCN
Se ainda hoje, anos 20 do século XXI, Franca revela em muitas situações seu forte ranço conservador, imagine-se como deveria comportar-se em meados dos anos 50. Dominada por elite oriunda do agronegócio, pequena classe média emergente e uma grande parte do povo vivendo de seus comércios e pequenas lavouras, o perfil seria de sociedade patriarcal e autoritária que reservava à mulher papeis tradicionais de esposa e mãe. Aceitava-se que se tornasse professora. Assim os anos 50 mostram Sonia Menezes Pizzo: casada com Américo Pizzo, mãe de dois meninos- Américo e Mauro.

Então, imagine-se como deve ter sido a reação de todos quando ela aceitou convite do jornalista Alfredo Henrique Costa, diretor do jornal Comércio da Franca, para assumir função de colunista social, o que significava escrever sobre eventos de importância para a cidade. Lúcia Helena Maniglia Brigagão, na biografia “Querida”, conta este lance, incluindo a escolha do pseudônimo com o qual a protagonista se tornaria conhecida- Patrícia.

Ousar acolher o sonho e enfrentar opiniões contrárias é atitude dos fortes. Pois assim é ela. Ao sentir que seu talento era a comunicação, não pensou duas vezes. Quando as atividades no jornal, e depois nas emissoras de rádio, a absorveram por completo, afastou-se do magistério.

E como quem trabalha naquilo de que gosta não se cansa, a incansável Patrícia foi arregimentando um número imenso de leitores e ouvintes que queriam saber, de início, como viviam os abonados, fato de que nos deu conta em recente crônica Maria Rita Liporoni Toledo, falando da alegria de sua irmã Maria de Lourdes ao ser notada e anotada por Patrícia em um baile na AEC. Aos pouquinhos a colunista foi se desenlaçando desse universo restrito e, quando veio para o Comércio, adquirido por Correa Neves, seus projetos já iam além de festas. Ela havia se tornado uma grande comunicadora.

Em Franca, na região, no Estado, em algumas capitais, procurou se fazer presente nos principais acontecimentos. Porém seu centro de interesse era sempre a cidade. Interessada então muito além da moda das madames, foi grande incentivadora da primeira edição da Francal, realizada de forma improvisada na Cidade Nova.E de todas as outras edições ela participou, orgulhosa da indústria que levava com os sapatos o nome de Franca para todos os lugares.

Depois vieram as tragédias. Morreu o marido Américo, seu parceiro de todas as horas. Morreu o filho caçula, Mauro. Morreu alguns anos depois Américo Junior. E o segundo marido, Cecílio, foi acometido por doença incapacitante. De tudo, o pior foi perder os filhos, porque não é da ordem natural das coisas os mais velhos enterrarem os mais novos.

Os amigos pensaram que ela não suportaria tanta dor quando Mauro se foi de repente. Ela suportou. O segundo baque com a partida também súbita do primogênito quase a derrubou. Outra vez disseram: “Ela não vai aguentar”. Ela aguentou. Sofreu com a fé e a dignidade de um grande ser humano. Inspirou-nos.

E eis que ela volta a nos inspirar agora. Há um mês sofreu um AVC e passou por cirurgia. Seu forte coração continua pulsando. Seus pulmões funcionam perfeitamente. Mas a consciência está ausente.

Na semana anterior, dada alta médica, pois não seria sensato mantê-la hospitalizada, eis que os quatro netos, sua paixão declarada, organizaram-se a fim de levá-la para casa. Foram surpreendidos pelo aviso da amiga advogada, Neuza Ribeiro. Em documento passado em cartório, Sonia Menezes Pizzo, a Patrícia, tinha registrado seu desejo de, em caso de inconsciência, ser levada para a mesma instituição onde se encontra Cecílio.

Há cerca de doze meses ela procurou cuidar de si para fazer valer sua vontade quando isso não fosse possível. Foi um gesto extraordinário, que me fez admirá-la ainda mais. Continua conduzindo sua existência, sem se deixar conduzir. É exemplo de autonomia, coerência e grandeza que eu aplaudo, retribuindo o beijo que ela me enviou por telefone, cinco dias antes de adoecer. Sua voz ainda ecoa nos meus ouvidos: “um beijããããããão...” Eu lhe mando outro, na esperança de que sua mente privilegiada volte a vibrar a vida que ela tanto ama.



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