27 de maio de 2020

Nossas Letras

'Noite de Dioniso'

De acordo com definições correntes da Cosmogonia Grega, Dioniso era representado nas cidades gregas como o protetor dos que não

Nossas Letras 18/01/2020 - Repórter: Vanessa Maranha
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De acordo com definições correntes da Cosmogonia Grega, Dioniso era representado nas cidades gregas como o protetor dos que não pertencem à sociedade convencional e, portanto, simboliza tudo o que é caótico, perigoso e inesperado, tudo que escapa da razão humana e que só pode ser atribuída à ação imprevisível dos deuses.

O francano Alexandre Bonafim acaba de lançar Noite de Dioniso, livro de poemas pela Editora Terra Redonda, prefaciado pelo grande poeta Claudio Daniel e que tem na figura de Dioniso, deus dos ciclos vitais representado pela Mitologia Grega, seu grande mote.

Escritor vigoroso que transita com desenvoltura pelos gêneros poesia, ensaios e contos, Bonafim já tem mais de 40 livros publicados na bagagem. Noite de Dioniso traz a marca do autor maduro, com um panorama de leituras que vai da poesia latino americana, e em termos de filiação estética, situa-se num amplo espectro, que vai desde uma paixão recém-descoberta pela poeta peruana Blanca Varela, a uma ampla abrangência, sobretudo, ibérica.

“Poesia portuguesa e espanhola são minha devoção. Em Portugal aprendi muito com a poesia de viés objetivo de Sophia de Mello Breyner, com o imagismo de Eugenio de Andrade e Ramos Rosa. A Espanha também é minha pátria poética, a geração de 27 me comove e me impacta com intensidade. Mas de todos os mestres, com certeza, eu sempre aprendo e admiro João Cabral de Melo Neto”, conta Bonafim.

Lembrando Rainer Maria Rilke, em relação ao ímpeto criativo, o poeta explica que o seu processo de criação conjuga duas forças imprescindíveis. “Primeiramente o influxo criativo, a chamada inspiração, arroubo pra mim de fundo místico, transcendente. Êxtase dionisíaco, noturno. Embriaguez. Depois vem a força crítica da técnica, a escolha da palavra exata, cortante, concisa, concreta. A procura da linguagem necessária ao material bruto da sensibilidade. Esse processo racional nasce, claro, da experiência literária, do burilamento técnico advindo do estudo, do esforço, do permanente exercício de aprendizagem do ofício da escrita. Leitura. Ascese.”

O leitor verificará claramente que sua poética nasce da necessidade de expressar a força do corpo humano, marcas formais e temáticas muito próprias da estética de Alexandre Bonafim e que perpassam toda a sua obra: os pés, os cabelos, o tórax, os ombros, essa torre de mistérios e encantamentos que é o corpo humano.

“Queria expressar a força telúrica da carne. Por isso Dioniso, o Deus do ímpeto cego da pulsão carnal, do Eros, da embriaguez. Um livro sobre a noite, o amor e a morte. Porém, longe de ser uma poesia de vertente romântica, é um livro que paradoxalmente é racional, porque poesia sem exercício da linguagem, sem perícia técnica no uso do instrumental linguístico, é mera expressão de sentimentalidades comezinhas. Sem técnica, perícia, raciocínio, o esplendor da volúpia não alcança seu alto voo. Dioniso só é pleno ao lado de Apolo. Dioniso portanto é subversivo. E meu livro é bordado por um Eros subversivo, um Eros de esplendor homoerótico em tempos de retrocesso, tempos duros esses do Brasil de hoje, em que a diversidade e o amor têm de ser necessariamente uma resistência também política. É preciso evocar Dioniso, porque é ele quem nos salvará dessa ordem política do preconceito e da violência a qual o Brasil mergulha, em plena miserabilidade pela falta de valores éticos”, explica.

Noite de Dioniso é um livro que, por sua sensibilidade, pela arrebatadora força poética, pela maturidade autoral, merece a atenção em 2020.



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