02 de abril de 2020

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Clara já atingira a quarta idade quando se interessou pelo funcionamento e saúde dos computadores.

Opinião 17/01/2020 -
Clara já atingira a quarta idade quando se interessou pelo funcionamento e saúde dos computadores. Durante o almoço familiar, se falara sobre vírus, sobre arquivos contaminados, a importância de vacinas. Ela ouviu tudo. Quando os netos saíram da mesa, perguntou daquele jeito que mães mais velhas costumam fazê-lo, contida e quase sussurrante: “por favor, me explica esse negócio sobre vírus no computador.”

Fosse ainda viva, semana passada encontraria alguma forma de me encantuar e perguntar sobre essa história de com, sem, mais ou menos gêneros sexuais. À mesa, a discussão girara sobre o assunto, quando se comentou que hoje, ao registrar qualquer recém-nascido, o campo Sexo pode ficar em branco, de forma a ser preenchido quando o recém-nascido se tornar adulto, decidir que apito toca e voltar ao cartório para completar o documento. Não sei o que fariam em caso de arrependimento, tipo “desculpe, eu pensei que era isso, mas agora acho que sou aquilo”, nem muito menos a quem recorrerão se novamente se virem arrependidos.

Clara era pessoa de mente extremamente aberta, livre. Fala-se em mulher “empoderada”, penso nela. Clara era minha mãe. Criou-nos segundo seus princípios, trabalhava, era independente. Nunca criticou qualquer atitude alheia, era amiga de gregos e troianos, de Messalinas e Sansões. Quando estranhamos gestos e modos do primo que falava fino, rebolava, gesticulava muito, frequentemente deixado de lado nas reuniões familiares, ela decidiu que ele merecia respeito. Não saberia o que lhe dizer sobre gêneros, caso ela perguntasse hoje, sobre preconceito sexual ou racial, na nossa sociedade. Como explicar isso a quem jamais demonstrou hostilidade ou intolerância a qualquer ser que destoasse dos demais? Dizer-lhe que alguém não devesse ser aceito por ser homossexual? Ou que seria melhor ignorar a parente próxima que tinha relações sexuais com outra mulher? Ou fingir que não conhecemos aquele primo casado, com filhos e amantes homens? Cada um sabe de si, ela justificaria, para continuar se relacionando com todos. Desconhecia, mas se soubesse calaria fofoqueiros na hora do falatório, apenas citando Nelson Rodrigues: “Se todo mundo conhecesse a vida íntima de todo mundo, ninguém conversaria com ninguém.” Idem com relação a preconceito racial.

À nossa mesa de jantar, em dias festivos ou normais, sentavam-se, todos juntos e misturados, loiros, morenos, mulatos e negros. Metade, por parte de pai. Morenos claros e escuros, mulatos e negros, por parte de mãe. Daquela miscigenação toda, saíram pessoas íntegras, honestas, nenhum envolvido em falcatruas ou escândalos. Profissionais liberais, profissionais artesanais, pessoas que ajudaram a escrever a história por onde passaram com sua arte, seu trabalho ou colaboração, muitos músicos, escritores, compositores e artistas. Sim, tenho muito orgulho da minha misturada origem e da ausência de preconceitos em minha vida.

 

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora
luciahelena@comerciodafranca.com.br


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