15 de agosto de 2020

Artes

LIVROS

Leitor de mundos

Mediador de leituras, Felínio Freitas, que nasceu no semi-árido e hoje trabalha no SESI-Franca, tem uma história de vida inspiradora

Artes 05/10/2019 - Sônia Machiavelli
Foto de: Divulgação
Felínio Freitas cresceu no semi-árido baiano, numa região muito pobre do nordeste chamada Pintadas. É um município que até hoje não tem bibliotecas. Foi alfabetizado, junto a outras crianças, pela única pessoa que sabia ler. Sua família fez parte dos migrantes que entre 1980 e 1990 partiram em busca de trabalho em usinas de cana-de-açúcar, na laranja ou na construção civil. Aos dez anos seus pais fixaram residência no interior de São Paulo. Com essa mudança, o menino descobriu o que era uma biblioteca.

“Quase chorei ao ver tantos livros reunidos num único espaço”, relembra. Jornalista, encontrou-se mesmo foi na área cultural, onde está há mais de dez anos. Já trabalhou em projetos de teatro, circo, arte digitais e visuais, cinema, música clássica, dança em cidades do interior de São Paulo e também em favelas da capital. Cursa a segunda pós-graduação na área de gestão cultural e ampliação do repertório poético em linguagens artísticas. Nesta entrevista, fala de suas inspirações, trabalho e um projeto de sua autoria recentemente premiado.


Fale de seu projeto sobre mediação de leitura premiado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil

Felínio Freitas- Fiz um relato sobre o meu trabalho como mediador de leitura na Caixa de Cultura, projeto de difusão literária do SESI-SP, para trabalhadores da indústria. Aqui em Franca esse projeto existe desde o começo da década de 1990 e sou a pessoa que faz a troca dos livros, realiza o trabalho de mediação dessas obras. O relato foi premiado em 1º lugar na 18ª edição do Leia Comigo! - concurso da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Sobre o tema “mediação de leitura”, você participou há dias de um Congresso no Espírito Santo, onde foi lançado livro que tem sua participação.
Felínio Freitas- Na 28ª edição do Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação que esse ano tem como tema Desigualdade e Democracia: qual é o papel das bibliotecas?, participei de uma mesa que considerou as práticas de leitura para o desenvolvimento da equidade social, cultural e crítica da população. No congresso também participei do lançamento do livro Mediação da Leitura Literária em Bibliotecas, que tem um texto meu que fala de como passei de leitor a profissional da área, sobre o que é ser mediador cultural ou de leitura e quais os caminhos poéticos e afetivos dessa formação.


Desde quando a leitura é essencial na sua vida?

Felínio Freitas- A leitura foi minha maneira de entender o mundo, as pessoas, os meus sentimentos. Desde pequeno ela já tinha um papel essencial. Quando menino, na falta de livros, eu saía pela caatinga pegando restos de lata de óleo, embalagens de produtos, lia bula de remédio para saber o que aqueles objetos e palavras me contavam. Ler é como respirar. Tudo o que sou eu devo aos livros e leitura.


Quais as pessoas significativas que o motivaram à leitura?

Felínio Freitas- Os responsáveis por essa paixão pelo conhecimento foram minha família paterna e materna com seus encontros para colher feijão, o milho, para cantar samba de roda e chula. Eles me deixaram encantado pela palavra e pela poesia das coisas da vida, antes dos livros. Meu pai, mesmo tendo somente o ensino primário, quando retornava de São Paulo para a Bahia levava gibis e revistas para casa. Mas, creio que minha primeira leitura foi de mundo, de tentar entender o local onde morava, as pessoas, seu jeito simples de viver: tudo na base do amor, da festa e da devoção.


Sua avó, que você perfilou num texto cheio de ternura no caderno Nossas Letras, parece ter sido influência decisiva na infância.

Felínio Freitas- Sim. Petronilha Guimarães, minha avó paterna, tinha uma mala recheada de livros, bibelôs de viagens. Aquela mala em pleno sertão, sem muitos recursos, era algo mágico para uma criança. Ela sentava com os netos e mostrava aqueles objetos, livros, calendários com muito fascínio. Naquelas histórias e falas, ela me dizia nas entrelinhas que existia um mundo a ser descoberto, coisas a serem vistas, pessoas com histórias para contar. Isso me deixava fascinado num tempo onde não tinha acesso à televisão, internet, mas somente ao rádio. Todas as vezes que entro numa livraria ou centro cultural penso nela com muito carinho. A gente aprendia a ler o mundo vendo os pássaros cantar, com a chuva, com a colheita, com os cantos para santos católicos, com os sambas no terreiro de Candomblé.

Os índices de leitura no Brasil ainda continuam baixos. O que acontece conosco?
Felínio Freitas- Não temos uma política efetiva de promoção do livro e da leitura. A nossa relação com os livros é algo muitos recente, não temos nem 300 anos de cultura livresca. Tudo o que é iniciado no Brasil relacionado à leitura e ao livro é sempre extinto.Fora isso, os políticos vêem os livros como algo desnecessário e perigoso. Quem quer uma população pensante, que reflete, que não caia em fake news? Ler é um ato revolucionário. Eu sempre faço a seguinte pergunta: qual foi o último livro lido pelos nossos vereadores, prefeitos, governadores ou presidente? Será que eles leem? Só valorizamos aquilo que conhecemos, que admiramos, que faz parte da nossa vida. Um país que não valoriza o conhecimento e o saber está fadado à insensibilidade, ao atraso e à violência.


Que livro está lendo no momento?

Felínio Freitas- Ando lendo/repousando meu coração no livro Obra Poética, de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma poeta portuguesa de quem gosto muito e que traz luz, beleza e um olhar muito generoso/crítico para as coisas da vida e do dia a dia.
 



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