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O excomungado

‘Só achamos que as outras pessoas têm bom senso quando são da nossa opinião’
La Rochefoucauld,
escritor francês


A sociedade brasileira vem passando, nos últimos 20 anos, por uma transformação nada discreta num de seus cânones mais fundamentais: a religiosidade. Se é fato que o Brasil ainda concentra o maior número de seguidores da ‘Igreja de Roma’ no mundo, também é fato que num horizonte relativamente curto, de no máximo 30 anos, o número de brasileiros evangélicos e católicos será o mesmo.

Os números falam por si. Dados do Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que hoje há 64,6% de católicos no país e 22,2% de evangélicos. Em 1970, o número de católicos chegava a 91,8% da população, enquanto os evangélicos eram apenas 5,2% do total de brasileiros. A taxa de conversão é direta. Quase sempre, um neo-evangélico é um ex-católico.

Há teses interessantíssimas que tentam explicar o fenômeno, mas nem é preciso grande curiosidade intelectual para se constatar o que a realidade impõe: a Igreja Católica encontra enormes dificuldades para afinar seu discurso e suas ações aos tempos atuais. Insiste em aplicar códigos seculares - e absolutamente ultrapassados - para resolver dilemas cotidianos, se mostra refratária ao diálogo por mais que diga o contrário e pune a discordância com rigor incompreensível, tudo isso enquanto se mostra leniente com relação aos seus membros que cometem crimes capazes de fazer qualquer pessoa com mínimos princípios morais arrepiar até o último fio de cabelo.

Dois casos, que se relacionam direta ou indiretamente com Franca, são bons exemplos de como a balança da Igreja varia de acordo com as circunstâncias. No primeiro, têm-se o Padre Dé e os abusos sexuais cometidos contra menores de Franca, que resultaram numa condenação, pela Justiça, à pena de mais de 60 anos de cadeia, e a nenhuma ação efetiva da Igreja para banir de seus quadros alguém com tais predicados; no segundo e mais recente, há a decisão do bispo de Bauru, Dom Caetano Ferrari - que foi também bispo-coadjutor aqui na terra das Três Colinas - de expulsar, com todas as desonras possíveis, o padre Roberto Daniel. Seu crime? Dizer o que pensa.

Roberto Daniel, ou padre Beto, como é mais conhecido, está longe de ser um religioso conservador, mas tampouco pode ser tachado de revolucionário. Não há em suas pregações incitação a um cisma, ataques ao Papa, uma nova proposta de culto, postulações dogmáticas inovadoras ou coisas do gênero. Padre Beto é apenas um liberal como tantos outros, que não está alheio a comportamentos que são práticas ordinárias de seu rebanho e que, compreensivelmente, procura assimilar as mudanças em curso. O que faz padre Beto singular é o fato de ter cometido o ‘pecado’, pelo menos aos olhos da Igreja, de dizer o que pensa. A reação foi imediata - e violenta. Padre Beto foi excomungado.

Mas, afinal, o que de tão terrível disse padre Beto? Para começar, ele defende o sexo como fonte de prazer, e não apenas para reprodução, como insistem em sustentar os religiosos conservadores. Também acredita que as relações sexuais antes do casamento nada têm de pecaminosas. Pelo contrário, são vistas por ele como fundamentais para que os namorados criem intimidade e cheguem ao matrimônio mais conscientes de sua escolha.

Um pouco mais excêntrica é sua opinião sobre fidelidade. Ele diz, por exemplo, que a bissexualidade é possível e que, neste caso - de alguém se relacionar com um homem e uma mulher ao mesmo tempo - não há problemas se houver consentimento. Quanto aos gays, defende que se trata de um amor como outro qualquer e que não há razão para que a Igreja não os acolha plenamente. ‘Todas essas pessoas são amadas por Deus, são filhas e filhos de Deus e merecem ser felizes dentro da sua sexualidade humana’, sustenta.

Tudo o que padre Beto fez foi defender seus pontos de vista, nada muito diferente do que fazem alguns cardeais, especialmente alemães, italianos e franceses, em textos publicados mundo afora. Padre Beto não foi flagrado numa orgia, não realizou casamento de homossexuais nem renegou o celibato. Ainda assim, foi intimado a recuar e a desdizer o que havia dito. Como se negou, foi excomungado. Não apenas não pode mais celebrar missas como está também proibido de receber a eucaristia.

Difícil explicar como alguém pode ser duramente penalizado apenas por dizer o que pensa, como o padre Beto, enquanto um criminoso do naipe de padre Dé, que abusou sexualmente de muitos garotos, é acolhido no seio da Igreja sem maiores punições. É um contrassenso. E, também, do ponto de vista do rebanho, uma burrice sem fim. Maria Zita, de 86 anos, sintetizou ao portal G1, com a sabedoria típica dos mais velhos, a realidade que parte da Igreja insiste em ignorar. ‘Ele (padre Beto) é uma pessoa excepcional. Nas missas ele nunca falou uma coisa que fosse contra a religião. Sempre nos ensinou tudo que está na Bíblia. Eu, com 86 anos, concordo que assuntos polêmicos devem ser debatidos’, disse.

O ritmo de perda de fiéis no Catolicismo é forte e crescente. Se continuar a expulsar quem pensa diferente enquanto compactua com maníacos sexuais que mantém sob sua proteção e bênçãos, não será absurdo imaginar um instante em que a Igreja Católica estará reduzida a condição de seita de menor relevância e abrangência. Muito pouco para a instituição que, apesar de seus enormes erros ao longo dos séculos, tem sido referência de valores morais - e, mais importante, de conforto espiritual - para bilhões de pessoas em todo o mundo.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br




Comentários sobre esta notícia


Cartas

‘Mais dinheiro para adequar’


Claro como a água. A decisão de adiar o alargamento do canal teve, como objetivo principal viabilizar a execução do viaduto ‘Dona Quita’, ainda no período eleitoral, (para) colher óbvios benefícios eleitoreiros. O grande problema técnico é que, agora, o alargamento do canal vai ter que ser feito e executado dentro de um “valeriaduto” limitado pelos pilares e laje da ponte escantilhada. O consequente aumento do custo da execução desta obra, aqui estimado em R$ 2 milhões, caiu no nosso colo, cidadãos francanos, eleitores ou não do PSDB! Isso não é justo! Nós estamos pagando pelo sucesso eleitoral de uns poucos! É o nosso valeriaduto francano! Não podemos ficar quietos perante esses desmandos políticos!

Hélio Pereira Vissotto

Franca - SP

Bebê ferido


Não tenho nada a ver com a vida dessa criatura, os fatos deverão ser apurados. Mas pensemos bem: com 15 anos, mãe de uma criança de 7 meses, e já esta morando com outra pessoa que nem é o pai da criança? A questão não é nem o que ela faz da vida dela, mas como pode ter coragem de maltratar um bebê, se isso aconteceu mesmo! Desestrutura total!

Rose

Franca - SP

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Infelizmente, quem vai ajudar a criar os filhos dessa infeliz somos nós, de um jeito ou de outro. Pelo lado legal, será com o dinheiro que os governos arrancam de nós e transformam em Bolsas Tudo que inventam, a partir dos altos impostos que nos tiram. Se for pelo lado da malandragem, continuarão gerando mais mais e mais (crianças) e as abandonando porque não têm mínima noção de valores familiares e morais. (Todas se tornarão) bandidas. Olha só tamanho do prejuízo que essa (...) causa para a nossa sociedade! Pior que sempre aparece alguém pra ter dó, e defender...

Cristina

Franca - SP

Fracasso de público


Mesmo que seja feita voltada para exposição agropecuária, para a população o principal seria shows. Franca vive carente de grandes eventos e a Expoagro é a oportunidade de todos irem ver grandes artistas. Gera, também, empregos temporários e aumento de vendas para o comércio. Sem grandes artistas não gira a economia e há menos opções de lazer. Tenho certeza de que todos os que criticam, todos os anos, os jovens bêbados e a organização ruim, continuariam indo. Quanto aos que aplaudiram (a nova programação), porque não foram até lá, no primeiro dia?

Rafael

Franca - SP

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Em torno de 20 pessoas foram? Cadê os que comentaram aqui, dizendo que a decisão (de shows locais) era inteligente? Cadê os que foram ver artistas regionais? (...) garanto que se a Virada Cultural fosse aonde iria ser, teria mais prestígio! (...) shows com artistas mais (conhecidos) não desvalorizaria essa feira agropecuária. Muito pelo contrário. (...) Triste realidade. Reclamar, a maioria reclama, mas, na hora de votar, tem preguiça de pensar!

N. Costa

Franca - SP

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A Expoagro, desde sua criação, foi voltada à agropecuária. Depois, inventaram a bagunça dos shows, palco de violência, bebedeira (...). Todo ano tem baderna por lá, sem contar os coitados dos vizinhos do parque, que ficam três semanas sem dormir. Este ano faço questão de ir visitar. Vou ver o gado, os cavalos. Vou e vou levar minha família com muito prazer e alegria. Parabéns prefeito e organizadores. Quem fala em fracasso são amantes de bagunça e violência. Menos necessidade de polícia lá, o que faz sobrar soldados para patrulhar melhor o resto da cidade.

Paulo Coelho

Franca - SP

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Será que alguém acredita que essa feira possa ser sucesso de público? Essa é a verdadeira crônica de um fracasso anunciado (desculpe-me, Garcia Marquez). O ‘remendão’ vai ficando cada vez mais bizarro.

Mirto Felipin

Franca - SP

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(...) tenho pena de nossos artistas locais que apenas querem divulgar seu nome e seu talento na festa, e, que, de fato, devem mesmo usar a oportunidade para isso. Agora, (...) prefeito, parabéns. Pelo visto, teremos um governo com visão de futuro, e que pensa no povo, naqueles que acreditaram na sua pessoa (desculpe-me, não me incluo)... No primeiro ano de mandato, mostra a que veio (...).

Anderson

Franca - SP

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