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A decisão


Data: 01/04/2012
Vale a pena viver em quaisquer circunstâncias, ainda que presos a uma cama e mergulhados em dor por dias e noites sucessivos, sem chance de cura ou melhora?

“O que é belo não morre:
transforma-se em outra beleza”
Balley Ardrich,
escritor americano


A reunião da rádio, o encontro semanal dos principais gestores da Difusora para discutir os detalhes da operação, é sempre a melhor da semana aqui no GCN. O dia, sexta-feira, é propício. O horário, por volta das 18h30, muito bom. O local, uma sacada, agradabilíssimo. É também a última das dezenas que fazemos rotineiramente com os vários setores que compõem as empresas do grupo e, por isso mesmo, tem caráter de celebração, de comemoração de mais uma semana que chega ao fim.

Exatamente por tudo isso, estranhei quando, ao final da reunião desta última sexta-feira, o diretor artístico, Everton Lima, voz embargada e olhos marejados, disse que tinha mais um assunto a tratar comigo. ‘A família quer que eu leia a carta de despedida do menino...’, balbuciou rapidamente. Terminada a frase, cruzou os braços como faz sempre que se emociona, como se apertar o próprio tórax o ajudasse a segurar o choro. Imaginei do que se tratava. Perguntei quem o havia procurado. ‘Um tio. Pediu que eu lesse a carta em meu programa’.

Há anos ignoramos notícias de suicídio no Comércio e na Difusora. Quando noticiamos, em circunstâncias excepcionais e apenas nos casos em que o desfecho tem outras implicações - quando há um crime seguido de suicídio, por exemplo, ou ainda quando quem põe fim à própria vida é uma figura pública - procuramos seguir as orientações do CVV (Centro de Valorização da Vida), especialmente a recomendação de nunca detalhar as circunstâncias ou o modo de ação.

Mas, neste caso, estávamos diante de um pedido diferente, feito pela própria família, que desejava tornar pública a última manifestação de um rapaz de 23 anos, cuja vida chegou ao fim na segunda-feira, 26 de março. Perguntei ao Everton se ele havia lido a carta. Fez um breve aceno com a cabeça em sinal afirmativo, sem conseguir acrescentar uma palavra sequer. Chamei Joelma Ospedal, editora-chefe do Comércio. Trocamos impressões. Sim, valia a pena publicar, defendia Joelma. Confirmamos mais uma vez com a família seu desejo. Seguimos em frente.

Para quem desconhece os detalhes fundamentais, Diego Morais era um rapaz bonito, forte, trabalhador. Estudava engenharia civil na Unifran. Na noite de 28 de maio de 2010, ao deixar a faculdade rumo a sua casa, escorregou com a moto numa poça de óleo. Sofreu ferimentos gravíssimos, que provocaram severas sequelas. Desde então, descontados os vários períodos de internação em hospital, sua rotina se resumia a permanecer imóvel na cama do próprio quarto, acometido por dores atrozes. Precisava de assistência e ajuda para tudo. Na última segunda-feira, pôs fim à própria vida. Deixou uma carta para familiares e amigos.

A última mensagem de Diego está publicada hoje na página A-17. Desde que li seu conteúdo, não consigo pensar em outra coisa. Suas palavras agradecidas, emocionadas, nada piegas, forçam uma reflexão que resulta necessariamente em profundas inquietações. Uma delas, em especial, é um desafio a todos os cânones com os quais nos defrontamos desde o nascimento. Vale a pena viver em quaisquer circunstâncias, ainda que presos a uma cama da qual somos incapazes de sair e mergulhados em dor por dias e noites sucessivos, mesmo que não reste qualquer possibilidade de cura ou melhora? Qual seria o nosso próprio limite pessoal diante do infortúnio? Como agiríamos se tal decisão tivesse sido tomada por um ente querido?

Na longa despedida de Diego, não há aspereza. É evidente que ele não está feliz, mas o seu balanço final é muito mais um lamento do que uma expressão de revolta. ‘Um dia, quando acordei, vi que tudo se foi, escapou por entre os dedos e me deparei com a dura realidade: o que me restara era pouco pra mim...’ Ele sente falta do homem que foi, lembra com carinho dos muitos momentos de felicidade e diz que se tivesse que rodar o mundo atrás de uma solução, enfrentaria o desafio. Mas, admite, não existe tal alternativa.

Num dos trechos mais pungentes, e sabedor do impacto que sua atitude provocaria, desculpa-se e justifica seus atos com a impossibilidade de pelo menos sonhar. ‘Poucos irão conseguir entender, aceitar ou perdoar essa minha atitude, mas não fazia mais sentido continuar; tudo que eu tinha se foi: planos, amigos, felicidade, festa, amores, trabalho, faculdade, sonhos... Até meus sonhos foram destruídos (...)’.

Diego se foi e imagino quão dolorosa é sua ausência para todos aqueles que conviviam com ele, para a mãe e o pai a quem devota tanto amor, para o irmão caçula a quem recomenda que assuma as rédeas de casa e reitera os apelos para que estude muito. Não tenho dúvidas de que sua morte deixa um vácuo impossível de ser preenchido.

A vida é uma dádiva, independente de quem - ou o que - a tenha concedido. Vale a pena lutar por todo fiapo de existência, mas há que se respeitar o limite do outro. Em casos extremos, quando não há luz no fim do túnel, a decisão de terminar a própria história, independente das crenças, deve ser respeitada, mesmo que se discorde dela. Sem julgamentos, sem recriminações. Cada um de nós conhece seus próprios limites. Ninguém mais.

CORRÊA NEVES JÚNIOR
é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br

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Comentários sobre esta notícia

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maria neuza

03/04/2012 :

-cruel fatalidade e grande dor q este moço e a familia e amigos vivenciaram durant estes quase 2 anos c/ certeza devem ter sido muito dificeis e tristes.+somente Deus sabe o verdadeiro significado da palavra dor e perda,Li todo o conteudo apenas c/os olhos e nao mais consegui pronunciar p/ minha filha aqui ao meu lado,a emoçao e as lagrimas tomou conta de nós duas.pois lá se foi + uma alma 1 anjo p/ 1 lugar muito distant e s/ volta.todos os relatos e lembrançs os quais foram citados pelo Diego algo chama a atençao pois ele relata umas + de 50 pessoas por nomes,gestos e atituds e até agradece e td isto mostra o quant ele era dicernente e intelectual,e o quanto foi estúpido,inquerente quand disse na carta e afirmou q no passado nada e absolutament nada o poderia parar ou impedir de algo na vida é como se o destino ou a força maior o tivesse confrontado dizendo q nao é bem assim:na carta e no viver em nenhum momento se pronuncia Deus.Q jesus ns agracie de entendimento(Deus nao é Adeus)
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vandeir

02/04/2012 :

olha liguei meu computador quando vi este titulo adeus interessei fui lê olha e te confesso sem palavras para comentar a unica coisa que tenho pra dizer e que de o conforto pra esta familia e que Diego descanse em paz
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andreia

02/04/2012 :

A tragédia da vida é o que morre dentro do homem quando ele ainda vive ( Albert Schweitzer).
Sem mais palavras...
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Saulo Eduardo Cordeiro

02/04/2012 :

É com grande tristeza que enfrentamos esta perda. Moramos na mesma rua desde a infância até a adolescência. No período em que tínhamos 15 anos de idade pedalávamos de bicicleta até o colégio João Marciano de Almeida todos os dias pelas manhãs e íamos comentando sobre como seria no futuro, nossas profissões e aspirações. Diego falava em ser engenheiro desde o ensino médio. Me lembro também quando formamos aquele grupo de jovens GUPAC com a turma nova, com muita alegria e dinâmica entre o veteranos e que por sinal resultou em amizades verdadeiras como a de Gedeon citado na carta. Espero que sua carta corra o mundo e faça cada um perceber o valor da vida e de nossos atos. Diego se foi, descansou, mas deixou-nos o legado da vida, o valor de cada momento. Infelizmente por ocasiões de estudos e vida profissional me distanciei do grupo, mas Deus sabe de nossas alegrias e do valor de cada momento compartilhado. Descanse em paz meu amigo !
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Leandro Pereira

02/04/2012 :

Hoje pela manha, logo que cheguei em meu trabalho, liguei o computador e como amante deste jornal acessei este caderno atraído pelo Titulo Adeus, acreditando que seria mais uma bela mensagem presente no Obituário, me enganei plenamente. A cada palavra, ponto e interrogação narrado, passava em minha frente um questionamento irreal de quanto vale a nossa vida?
Quando comecei a ler a Carta, já muito emocionado me coloquei em seu lugar e como em um momento deixei de fazer tudo que amo, deixei de brincar com meus filhos, de zombar os amigos após uma partida de futebol, e assim como o Diego, deixei de sonhar . Não sou perfeito, muito menos alguém capaz de julgar o sofrimento alheio, mais hoje me senti vivo, percebi que por menos que seja estressante uma rotina de trabalho, que o trânsito me atrapalhe ou alguém não goste de mim, tenho tudo para ser feliz.
Para finalizar, digo a família deste jovem que mesmo sem conhece-lo ou muito menos ter trocado uma palavra sequer me sinto um amigo. Ele com este gesto me ensinou as ser “ Feliz como sou e não como estou” e como disse no inicio do comentário esta não é uma bela mensagem do Obituário e uma linda lição de vida. Pensem em cada palavra e viva a sua vida.
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C.Helú

02/04/2012 :

O GCN,Publicou um fato veridicoautorizado pelos entes de Diego.
95% dos leitores do GCN,que leram essa carta de Diego,escorreram de seus olhospelo menos 2 gotas de lágrimas de seus olhos. Nem aquele que tem o coração de ferro, chorou. Vamos orar por você Diego,para você ter à Paz Esperitual. Oremos pela sua familia tambem.
E nós leitores,um respeito enorme ao jornalismo do GCN.
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Nayara

01/04/2012 :

Saudaaaaaaaaaaaade dói primoooo !
amo vc
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edineia silva sanches

01/04/2012 :

Que Deus conforte a família desse jovem. Sem julgamentos... Que Deus o acolha.
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CTI A

01/04/2012 :

este rapaz sofreu muito , estava trabalhando quando ele internou . ele lutou bravamente , depois foi p/ sp se tratar onde tem mais recurso e mais não deu A vida e mesmo assim
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Ana Célia de Freitas

01/04/2012 :

Ao ler a gazetilha fiquei surpresa no decorrer da leitura.A carta do jovem Diego nos mostra o quanto as coisas simples da vida são importantes, mas muito ignoradas.É triste um jovem lindo com um futuro brilhante acabar assim,porém jamais devemos julgá-lo afinal só ele sabia a dor em viver preso e alheio a vida.Só nos resta pedir a Deus pela família para que seja amparada.
Ao GCN meus Parabéns por essa atitude,concordo que nenhum veículo de comunicação exponha fatos de suicídio,pois para a família o fato já choca.Porém nesse caso o que ficou mais exposto não foi o gesto em si, mas uma lição de vida, a darmos valor a pequenas grandes coisas que talvez pela correria ignoramos.Vocês profissionais do GCN foram cautelosos,outros meios certamente iriam publicar na 1ª página,vocês foram sucintos,mostraram ética,bom senso e profissionalismo.
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Keity

01/04/2012 :

Emocionante a leveza e a sensibilidade com que o assunto foi tratado. Muita paz a essa família que convive agora com a saudade.
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Natália

01/04/2012 :

Ele descansou.! Ninguem pode julgar essa atitude ninguem poderia se quer imaginar a dor e o sofrimento que esse garoto estava passando! Isso serviu para muita gente dar valor nas pessoas e na Vida enquanto Perfeitos !
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Adriano

01/04/2012 :

Qdo Diego sofreu o acidente eu estava internado no mesmo hospital que ele, sofrendo do mesmo mal, um acidente de moto tb me deixou paraplégico, sei como é sentir na pele td o que ele sentia e, entendo seus motivos. Só nos resta lamentar...
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EDER BRAZAO

01/04/2012 :

Domingos são dias de descanso, de estarmos com a família, de nos reunirmos em almoços, de passearmos, visitarmos parentes, enfim dia de recarregarmos as baterias para a luta do dia a dia.
Não é dia dedicado a choros ou lamentações.
A carta de adeus escrita pelo jovem Diego além de me fazer chorar e de lamentar tudo o que com ele ocorreu, me levou, como deve ter ocorrido com todos que a leram, a várias reflexões, e dentre elas, o quanto as coisas aparentemente mais simples nos são, de fato, as mais importantes.
Mais uma vez, parabéns ao GCN pela coragem em publicá-la.
Abraços a todos
Éder
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Deny Eduardo

01/04/2012 :

Cada um sabe a alegria, e a dor que traz no coração.
(Epitáfio - Titãs)
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Bruno

01/04/2012 :

Simplesmente Emocionante.
O valor Que Vida da Gente Tem .
Temos Que Viver o Dia Intesamente Como se Fosse o Ultimo.
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