Há mais de 30 anos eles moram na mesma casa, no Centro de Franca. É uma residência simples, decorada com austeridade, algumas flores e quadros pela parede. Na garagem, apenas um carro, também nada portentoso. O estilo de vida do casal, voltado exclusivamente para o trabalho, talvez explique como a empresa que criaram 50 anos atrás tornou-se a potência do mercado varejista brasileiro que é hoje.
Luiza Trajano Donato e Pelegrino José Donato, fundadoresdo Magazine Luiza, receberam o Comércio da Franca em sua casa. Contaram como foi criada e se desenvolveu a rede que cresce em média 40% ao ano e deverá iniciar 2008 com 400 unidades.Da pequena loja de confecção, presentes e perfumaria à rede com receita de R$ 2,3 bilhões, tudo é resultado de muito trabalho, como disseram. Com absoluta informalidade, falaram de sua trajetória; da falta de filhos, lojas e funcionários aos quais, ambos com seus 80 e poucos anos (ele, 83; ela: “esqueci minha idade”), ainda se dedicam com afinco.
Comércio da Franca - Vamos começar do final: o que passa na cabeça dos dois ao verem no quê se transformou a loja que fundaram?
Pelegrino José Donato - É um contentamento enorme. É um orgulho ver que o Magazine Luiza cresceu tanto.
Luiza Trajano Donato - Para mim não há como não falar bem do Magazine Luiza. Outro dia, uma moça me perguntou como eu me sentia e eu disse que me sinto feliz, não por ter tantas lojas, mas por ser uma empresa que contribui para a sociedade, que trabalha com seriedade. Não fazemos mais que nossa obrigação. Para mim e para o Pelegrino, a empresa é tudo. É nossa vida.
Comércio - Qual foi a maior mudança que a evolução do ML trouxe à vida dos senhores?
Pelegrino - Você quer saber se a gente anda com segurança, essas coisas? Não temos segurança. Já insistiram muito para arrumar, mas nós andamos sem preocupação, confiantes em Deus.
Luiza - Minha comida preferida continua sendo arroz com feijão. E como não gosto de viajar de avião, meu lugar preferido é Franca. Como gosto dessa cidade! É aqui que me sinto em casa. O Pelegrino gosta de viajar; eu já gosto de ficar em casa, na minha cidade.
Comércio - É sabido que a senhora tem uma forma de trabalhar bastante próxima de seus colaboradores e defende muito os clientes de suas lojas. Poderia explicar isso?
Luiza - Costumo dizer e vou repetir: damos muito valor aos nossos clientes; temos essa obrigação. A pessoa sai de casa, embaixo de chuva, nos dá a preferência. Temos que valorizar cada um deles. Seja branco, preto, pobre ou rico. Com relação aos funcionários, sou a favor de ter mais negros nas lojas. Veja: recentemente, para duas vagas em uma loja virtual, recebemos 450 candidatos. Eram 360 mulheres e 90 homens, nenhum negro. Pedi para mudar isso na hora.
Comércio - O senhor ainda mantém sua atividade junto ao grupo? Trabalha, viaja?
Pelegrino - Vou para as lojas, fico de olho (rindo). Ainda trabalho, mas é menos que antes. Mas viajo muito, participando das reuniões com os fornecedores. É preciso conhecer os produtos.
Luiza - O Pelegrino participa de tudo. Cada nova negociação ele vai atrás. Sua opinião é muito respeitada.
Comércio - Por que não tiveram filhos?
Pelegrino - Estamos há 50 anos no zero a zero. Estamos o dia todo um com o outro, dia e noite, e só soubemos trabalhar.
Luiza - Feliz ou infelizmente não tivemos filhos. Mas temos nossa família e as pessoas que formam o Magazine são como se fossem filhos.
Pelegrino - Se o Magazine Luiza está na situação em que está devemos muito aos nossos funcionários. Como nós não tivemos filho, nos dedicamos ao Magazine Luiza.
Comércio - Será que eles reconhecem isso. É recíproco?
Luiza - Mas claro que é. Quem está no Magazine não sai. Não há esse giro de funcionários, o que leva a crer que estão satisfeitos.
Comércio - Apesar da defesa que a senhora faz de seus colaboradores, o que não seria perdoado em um funcionário?
Luiza - Não admitimos que o funcionário minta para o cliente. Honestidade com o cliente é obrigação. Se o produto for bom, é para dizer. Se não for aquilo que a pessoa está procurando, é para dizer também. Tem que ser honesto.
Comércio - Qual a maior ambição do Magazine?
Pelegrino - A gente sempre pensa em crescer cada vez mais; não podemos parar. Há muitas regiões para serem exploradas ainda no Brasil. Queremos iniciar o ano com mais de 400 lojas.
Luiza - Meu grande sonho não é fazer nenhuma viagem, nada disso. É entrar em São Paulo. São 18 milhões de pessoas e o Magazine Luiza vai fazer a diferença lá.
Pelegrino - Nossos sonhos são os mesmos. É a mesma coisa para os dois.
Comércio - Escândalos, corrupção, sonegação. Casos assim são mais raros em uma empresa comandada pela família?
Luiza - Acho que não. Não tem muito a ver esse negócio de ser ou não da família. Temos ótimos executivos, que são muito competentes e responsáveis.
Pelegrino - É preciso lembrar do nosso lema desde o início. Sempre demos bons exemplos de trabalhar com responsabilidade, para ter credibilidade.
Comércio - Como são as reações dos clientes quando descobrem que a pessoa que os atendeu foi a Luiza, do Magazine?
Pelegrino - (Exclama um vixe!!!) É uma alegria para o freguês saber que é a Luiza.
Luiza - Não sei por que essa surpresa. Sou uma pessoa normal. Vejo a pessoa ficar emocionada, mas fico sem graça. Não gosto, não.
Comércio - A senhora tem esse apego com a história do ML e com a própria cidade, mas não chegará a hora de a administração do grupo ter que sair daqui?
Luiza - Acho que sim, mas enquanto eu puder segurar aqui, vou segurar. Mas acho que vai acontecer.
Pelegrino - Franca é muito longe de São Paulo e essa a distância dificulta tudo. As compras maiores têm que ser feitas com os presidentes das empresas, com negociação mais direta. Mais cedo ou mais tarde vamos ter que deixar Franca.
Comércio - Recentemente, o executivo de uma rede concorrente (Ricardo Eletro) disse que conseguia vender mais barato que o Magazine porque não dava casa e outros prêmios. O cutucão vai ter resposta?
Luiza - Acho que a propaganda é a alma do negócio, mas cada um tem um ponto de vista. Nós fazemos propaganda desde quando começamos...
Pelegrino - Já fazíamos programa de auditório na praça, aos sábados, sorteando aparelho de jantar, colchão. Isso em 1957. Sempre fui favorável à propaganda.
Luiza - Mas vou te dizer uma coisa: não me preocupo nem um pouco com essa empresa que você citou, aliás não me preocupo com empresa nenhuma.
Comércio - Qual a saudade que vocês sentem dos primeiros tempos do Magazine? Era mais prazeroso quando se tinha o controle da loja nas mãos?
Pelegrino - Aqui teve muito trabalho, muito suor. O dinheiro que está aí é resultado de muito esforço. Nossa vida foi isso. Não tivemos tempo para reclamar e também não me arrependo de nada. A vida é vivida de acordo com os seus objetivos. E o nosso objetivo era crescer. Colhemos tudo o que plantamos.