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LEGADO AFRICANO
A África do Sul que ficará para trás


Foto(s): Marcos Limonti/Comércio da Franca
Data: 13/07/2010
O Estádio Moses Mabhida, em Durban, construído para a Copa

“O que ficou na África do Sul depois da Copa do Mundo?”, muitos devem se perguntar. Após a euforia espanhola no Soccer City, da consagração do uruguaio Diego Forlán como o melhor do campeonato, da febre das vuvuzelas pelas ruas, das hordas de torcedores em Joanesburgo ou Port Elizabeth, os turistas do mundo inteiro deixam para trás um país repleto de dilemas.


O efeito “Copa”, que independeu de uma boa performance dos Bafana Bafana, já está cravado na alma do sul-africano. É com orgulho que ele guarda o fato de ter sediado o evento mais importante do futebol e ter estado no centro das atenções do planeta. Em 30 dias, “ayoba” e “Shosholoza” (canção dos tempos do apartheid) tornaram-se expressões sul-africanas globalizadas para definir alegria e determinação.


Não se pode dizer que só agora o país vai voltar a se preocupar com seus problemas, até porque todos eles fome, miséria, criminalidade, preconceito racial estavam em evidência no decorrer do mundial. Também não se pode dizer que uma Copa é capaz de transformar totalmente um país e levá-lo à prosperidade.


Infelizmente, muita gente vai continuar sem emprego e vivendo nas shacks, os casebres de zinco sem banheiro, em townships como Soweto (a maior do país, em Joanesburgo) e Langa (a mais antiga da Cidade do Cabo), para não citar outras que se arrastam país adentro. Muita gente vai continuar mendigando pelas ruas, como Besman, 28 anos, que foi visto pela reportagem nos arredores do Soccer City durante a final, no último dia 11. “A Copa do Mundo foi fantástica, mas fiquei desapontado. Talvez eu tenha alguma chance após a Copa”, relatou o sul-africano, ao lado de seus dois irmãos mais novos. Besman tinha arrecadado naquela noite menos de 100 rands e garantiu que só estava pedindo esmola porque não tinha trabalho para comprar leite e pão.


Se por um lado, a pobreza ainda permanece, em termos gerais, a Copa do Mundo 2010 trouxe um grande ânimo para a economia do país. Só para se ter uma ideia, no primeiro fim de semana do mundial, a chegada de mais de 450 mil turistas movimentou pelo menos um bilhão de rands em gastos com acomodação, refeições, entre outros setores, segundo dados do instituto de pesquisa Grant Thornton. Agradou também as grandes marcas parceiras, assim como Joseph Blatter, presidente da Fifa, que deu nota “9 indo para 10” para a organização sul-africana do mundial. Um retorno que já repercutiu na iniciativa de trazer a Olimpíada de 2020 ou 2024.


Os próximos dias serão marcados por torcedores circulando por lojas a fim de comprar presentes como as afamadas camisas amarelas dos Bafana Bafana - e esperando a data do voo de volta para casa. Por aqui vão ficar as crianças de Soweto ou Swellendam que viram pela TV a Copa, bem como os pedreiros e lixeiros que comem pão puro para se alimentar e gastar pouco. Fica, por outro lado, um país aberto e preparado para o turismo, que, dotado de belezas naturais, cultura, história e um povo muito receptivo, não precisa de um evento para justificar uma visita.


Ficou também a despretensiosa paixão pelo futebol, que está presente nas partidas de fim de tarde numa estação de vans em Southgate, em Joanesburgo, ou na beira da estrada, ao lado de Khayelitsha, na Cidade do Cabo. Uma paixão que já desperta nos sul-africanos a vontade de viajar ao Brasil daqui a quatro anos.

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